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Mulheres na Obra – Laura Tecsi

É engraçado que quando falamos de forma profissional sobre obra os exemplos que nos vem à mente normalmente são homens. Mas já parou pra pensar que no mercado informal muitas mulheres acabam “tocando” as reformas de casa? Começam escolhendo os acabamentos e no fim, são elas que ficam “no pé” do empreiteiro contratado.
 

E apesar dessas experiências particulares, falando dos profissionais na construção civil, o imaginário popular é dominado por homens. Um ambiente onde existe o preconceito inclusive das mulheres, que se preocupam em provar sua capacidade num mercado majoritariamente masculino. Assim foi a experiência da Laura…
 

A estrutura normal da obra já dificulta o ingresso dessas mulheres. Por exemplo, faltam banheiros exclusivos, locais adequados e seguros para se tomar banho depois de um dia de trabalho, assim como os colegas do sexo masculino o farão.
 

Existe resistência ao ver mulheres em papéis tipicamente exercidos por homens. Dizer que se é pintora ou pedreira já tem uma percepção inferior ao mesmo papel sendo exercido por homens.
 

Em parte pela questão da força física as pessoas acham que a mulher não terá capacidade para exercê-los. Mas o que falta é investir em mulheres para estas funções.
 

E muitas vezes esse investimento não ocorre até pelo estigma que carregam as funções dentro da hierarquia de obra. Já é aceitável você estar em obra se for arquiteta ou engenheira, mas não é assim quando falamos de mulheres sendo ajudante de pedreiro ou eletricista.
 

É o caso de azulejistas. As pessoas gostam de ver esse trabalho sendo exercido por uma mulher, imaginando uma atenção maior aos detalhes. Mas duvidam que possa ser completamente realizado por ela, duvidam que ela seja capaz de carregar todas as caixas de piso e argamassa sozinha.
 

São vários os obstáculos colocados antes mesmo de começarem. Então mesmo quando se abrem vagas para os cargos, as próprias mulheres deixam de se oferecer para o trabalho.
 

Posso dizer que em 5 anos de empresa só consegui contratar 1 (uma) mulher em funções desse tipo. E ela só veio por que se viu sem saída. Veio como última opção. Era muito mais fácil essa mulher se imaginar em trabalhos como manicure ou faxineira do que como pintora.
 

Mas somos seres humanos, independente do gênero temos a capacidade de exercer aquilo que quisermos. Aí está o que me encanta! Como gestora de obra me encanta ver a transformação. Gosto do belo, de ver a realização do trabalho. Gosto de ver a renovação que ele traz. É legal ouvir o cliente trazendo os sonhos e expectativas do que deseja como casa. E ser parte disso é gratificante, assim como perceber no cliente a alegria do sonho realizado.
 

Eu nunca acreditei que esse trabalho fosse uma tarefa só para homens. Pelo contrário, acho muito mais natural para as mulheres, principalmente pelo capricho e busca de detalhes. Tudo que você se empenha sai bem, independente de você ser homem ou mulher.
 

Precisamos rever nossos hábitos. Perguntar-nos por que um pai quando troca um sifão chama o filho para ajudar e pede que a filha se afaste com a justificativa de não machucá-la? Por que ainda dividimos as brincadeiras que são de meninos ou de meninas? Acho que quando a sociedade tratar as questões como humanas e não como questões de gênero, teremos uma mudança.
 

Sou formada em contabilidade e sempre atuei em funções comerciais ou administrativas. Meus trabalhos eram escolhidos pela segurança financeira, e não pela realização que me traziam. Foi nascendo em mim à vontade de ter meu próprio negócio, não ser mais funcionária. Abri um escritório contábil e deu tudo certo, mas ainda me faltava alguma coisa. Entendi que precisava mudar de área.
 

Contratei uma empresa para pesquisar os mercados e ver qual estava “aquecido”, qual era promissor. E foi assim que cheguei à construção civil.
 

Somos uma empresa familiar. Assim como eu, nenhum de meus irmãos é arquiteto ou engenheiro. Pela falta de experiência na área optamos por ingressar numa franquia. O único que tinha trabalhado com algo assim era meu marido, que atuava na montagem de stands.
 

Juntamos isso a minha bagagem administrativa e achamos que a franquia completaria o que faltasse. Quanto à franquia, não foi bem assim. Mas quanto ao trabalho, foi paixão à primeira vista.
 

Quando lembro dos meus 18 anos e da escolha de profissão jamais me imaginaria atuando na construção civil, mas foi o lugar onde me encontrei. A cada semana conheço pessoas diferentes, casas diferentes, e estou sempre aprendendo. Meu interesse me levou a outros setores da empresa.
 

Afinal, se é minha responsabilidade orientar, contratar ou demitir, como posso tomar decisões assertivas estando de fora da obra? Por isso além de paixão é uma necessidade entendê-la.
 

Descobri, por exemplo, que a qualidade do material é essencial no trabalho. E esse era um problema que enfrentávamos com os clientes. Vimos às dificuldades deles para acertarem na compra, o tempo perdido para troca do material e o quanto tudo isso impactava na obra.
 

Comecei a fazer parcerias para compra desses materiais tentando facilitar a vida do cliente, mas ainda sem entendimento que isso também era um trabalho. Foi quando resolvemos associar aos serviços a compra de material.
 

Abrimos a loja de materiais em 2015 para suprir essa necessidade e para economizar o tempo do cliente, que é valioso. Com a crise, as coisas complicaram um pouco, não vou negar, mas continuo apaixonada e acreditando no meu trabalho.
 

Nas reuniões de franquia, 90% dos gestores eram homens. Até por isso fica fácil perceber a diferença na gestão feita por homens e mulheres. Somos detalhistas e os homens são práticos e diretos. As mulheres têm uma visão mais holística.
 

Considero uma vitória pessoal me manter na área da construção civil como gestora. Em um grupo com mais de 40 franquiados na cidade, somos uma das poucas empresas que sobreviveram à crise, e sem qualquer registro de reclamação dos clientes.
 

Opto por ter funcionários ao invés de terceirizar e isso me dá mais segurança para entrar no ambiente de obra. Sei que ninguém vai exceder limites comigo. Conheço e respeito os problemas de cada um, o que traz mais respeito a minha figura. Não me imagino exercendo essas funções se minha equipe fosse terceirizada.
 

Gostaria inclusive de ter mais mulheres nessa equipe em obra. Acredito que isso facilitaria nosso trabalho e diminuiria a resistência que encontramos. É complicado exercer esse papel de ter a última palavra quando a hierarquia cultural que existe vai contra isso.
 
Relembrando o convite:
E se você é mulher e se identificou me mande um e-mail, quero te conhecer! (camilapinotti.arquitetura@gmail.com)

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